Num dos muitos momentos de alívio cômico em Doutor Estranho, a médica Christine Palmer (Rachel McAdams) recebe no seu pronto-socorro mais um caso bizarro de monges e feiticeiros abatidos em batalha entre portais dimensionais. Parece, por um instante, não com a Marvel do cinema, comprometida acima de tudo com distrações sem consequência, mas com a Marvel da Netflix, obcecada com a busca de uma gravidade no seu entra-e-sai de hospitais.

O que Doutor Estranho tem de mais marcante é ser pego nesse meio termo – um bolsão difuso, como a realidade espelhada que aparece no filme, indefinido entre a Marvel lúdica e a Marvel adulta – e se ver aprisionado dentro dele.

De um lado, o diretor Scott Derrickson traz dos seus filmes de terror um senso de fragilidade diante do desconhecido: o elenco de Doutor Estranho é basicamente feito não de tipos super-heroicos (ou pelo menos de tipos clássicos de histórias de artes marciais, cheios de convicções) mas de personagens assombrados pela mortalidade. O fato de cada um reagir ao seu modo, cheios de dúvidas, quando confrontados com a inexorabilidade da morte, serve não apenas de motor da trama mas também dá a Doutor Estranho uma insuspeita carga dramática com que poucos filmes da Marvel ousaram flertar. Não é só o hospital como núcleo dramático; é o hospital como lembrete de que ali, naquele mundo todo feito de faz-de-conta, algo pode acontecer em definitivo.

Do outro lado, bem, temos a Marvel onde nada é definitivo e onde tudo opera na superfície: as cenas reiteradas de exposição servem não apenas para explicar ao espectador médio que diabos são esses misticismos todos, servem também para abrir portas a futuras outras histórias (como a menção ao Tribunal Vivo, elemento central de Infinity War nos quadrinhos), numa já conhecida retroalimentação de mitologia que nunca chegará ao fim. Não há morte possível no mundo das franquias, afinal. De qualquer forma, a Marvel trata de evitar arestas e desarmar qualquer arroubo já na incepção: se o duelo entre Strange e Kaecilius ameaça ficar muito denso, o Doutor entra com uma piada; se a sua jornada periga cair demais na estética new age o filme faz a Capa da Levitação reagir de forma cômica à pose do mago.

O resultado é um filme que, embora seja vendido como uma corajosa aventura lisérgica (o 3D de fato é crucial para aproveitar o melhor das pontuais viagens visuais de Doutor Estranho), nunca se aprofunda naquilo que a psicodelia tem de essencial, que é perder-se em si mesmo. A trilha de Michael Giacchino emula um pouco os excessos do rock progressivo apenas para embalar um produto de resto muito acomodado, que insiste em nos repetir textualmente seus temas e símbolos (o relógio quebrado e as mãos machucadas como sinais de que não temos domínio sobre o tempo) para ter sobre eles um controle prévio, calculado.

Que ironia que todas as lições aprendidas por Benedict Cumberbatch neste filme – deixar-se levar, abrir a cabeça para o diferente, aceitar a morte como parte essencial da experiência de estar vivo – sejam justamente aquelas que a Marvel sempre nega para si. Não que isso seja uma surpresa; cada vez mais a Fórmula Marvel se prova sua receita de sucesso e sua cruz. O que frustra mais é se ver diante de um filme que tem alguma noção do que almejar – nada resume melhor o potencial das histórias em quadrinhos do Doutor Estranho do que essa ideia de que lidar com o desconhecido é cortejar a dor – e mesmo assim ser incapaz de se entregar de alma a esse projeto.